O Gre-Nal do Centenário como Modelo

Em meados de 2009, Marlos andava receoso com a campanha que o seu Grêmio fazia no Campeonato Brasileiro. Num dado final de semana, ao visitar sua companheira pelo interior do Estado, ele resolveu assistir ao Clássico Gre-Nal com seu sogro (colorado moderado) na residência da família. Cada um vestia a camisa correspondente à sua paixão clubística. Lado a lado. No mesmo sofá. Uma peleia muito aguardada por todo o Rio Grande do Sul, até porque, a semana Gre-Nal havia sido de fortes sarcasmos de parte a parte. O Grêmio não vencia o seu arquirrival desde 2007 (o equivalente a sete longas partidas). O Imortal Tricolor treinado por Paulo Autuori  contava comVictor; Mário Fernandes, Rafa Marques, Réver e Fábio Santos; Túlio, Adílson,  Tcheco e Souza; Germán “Casi Gol” Herrera – Jonas era reserva – e Maxi “La Barbie” López. Enquanto o clube que iniciou a sua história fora do Brasil apenas em 2006, treinado por Adenor Leonardo Bacchi 0 o Tite, era formado por Lauro; Bolívar, Índio, Sorondo; Andrezinho,  Sandro, Guiñazu, D’Alessandro – Giuliano era reserva – e Kléber; Taison e Nilmar – Alecsandro era reserva.

O time vermelho era o favorito para vencer o clássico mais tradicional do Brasil, uma vez que havia derrotado o Tricolor da Azenha nas três oportunidades em que as entidades futebolísticas haviam se enfrentado naquele ano e brigava pela liderança do certame. Mas aquele não era um Gre-Nal qualquer. Não era um jogo comum. Era o que a imprensa chamara de “Gre-nal do Centenário” (porquanto o clássico completava cem anos de existência naquele histórico 19.07.2009). O Estádio Olímpico Monumental estava tomado de gremistas. O pequeno grupo de torcedores do rival tinha seus gritos abafados pelos cânticos reverberantes da imensa maioria azul. Marlos cantava as músicas da Geral do Grêmio como se estivesse no campo. O sogro colorado tinha a face cerrada, demonstrando concentração para a peleia.

Foi então que a companheira de Marlos mandou-se para dentro de seu quarto e deixou-o com seu pai a sós. A roda de chimarrão sempre fora uma tradição bastante difundida naquela família e, em “sinal de sociabilidade”, o sogro passou a cuia a Marlos enquanto os atletas aqueciam-se para o início do jogo. Chegado o momento dos Hino Rio-Grandense, o sogro  passou a resmungar pequenas frases em alemão (shclawengr thutacaranatah krowskatunaschwin…), ao passo que, sem entender nada, o genro gremista cantava respeitosamente de pé. Apita o árbitro. Começa o jogo.

 O Grêmio partia pra cima dos vermelhos desde o início, detinha a maior parte da posse de bola, porém não conseguia converter as oportunidades de gol. Herrera fizera jus à sua alcunha, perdendo dois gols. Marlos destroçava as unhas da mão de tanto nervosismo e seu sogro limitava-se a beber chimarrão, encher a cuia e repassá-la. Até que Souza erra um domínio de bola, num lançamento despretensioso de Andrezinho, e a pelota sobra limpa para Nilmar encobrir o arqueiro gremista Victor. O sogro se levanta, abre um sorriso e ergue os punhos diante de um inconsolável Marlos. Era incompreensível aquela falha de Souza para o torcedor.

Ocorre que “Gre-nal é Gre-nal e vice-versa” (como diria Jardel), e Souza haveria de ter ainda a sua ressurreição. Dez minutos após o gol vermelho, Souza chamou a responsabilidade, simulou um chute, driblou Guiñazu e acabou sendo derrubado. Souza pegou a bola, colocou na posição determinada pelo juiz e contou 3 passos para trás. O árbitro autorizou a cobrança, o meia gremista partiu pra bola e bateu com efeito por sobre a barreira de jogadores rivais. Golaço. Avalanche. No ângulo direito de Lauro. Sem conter o seu ímpeto, Marlos vibra em voz baixa na mesma sintonia de Paulo Brito (o narrador da partida): “FEITOOOOOOOOOOOO!” Pronto. Era o que bastava para o dono da casa. Ao beber a indigesta cuia de chimarrão seguinte ao empate tricolor, o sogro de Marlos ignorou a roda de chimarrão e encheu novamente a cuia para ele mesmo beber. “A guerra havia sido oficialmente declarada”.

Para piorar o clima, a companheira de Marlos (que sempre afirmara não ser torcedora de nenhum dos clubes) veio correndo em direção a ele e o abraçou, comemorando o gol efusivamente. Passou um filme na mente de Marlos naquele instante: “Bah, será que vou ficar solteiro depois desse Gre-Nal???” O fato é que o Imortal Tricolor tomara conta da partida após o empate, e o segundo tempo vinha se delineando de maneira promissora para os interesses azuis. Marlos e seu sogro nem se olhavam mais. O sogro, a propósito, havia ido ao sanitário por três vezes (até porque bebera 2 térmicas de chimarrão). Seguiu-se a pressão gremista em busca da vitória que lhe alavancaria para a sexta colocação no Campeonato Brasileiro, até que o capitão gremista Tcheco fez jogada magistral pela esquerda de defesa vermelha, ao driblar dois marcadores e cavar um escanteio. O instável Souza foi para a cobrança daquele escanteio para escrever o seu nome na história do clássico. Cobrança em curva na entrada da pequena área. Réver aproveita falha sequencial de Índio e Sorondo e bate forte no canto esquerdo de Lauro. O estádio emudece. Ouve-se o som de uma moeda caindo ao chão. Os torcedores trancam a respiração à guisa uníssona. A pelota desvia em Guiñazu e sobra para Maxi “La Barbie” López. O centroavante loiro cabeceia para o fundo das redes e o Monumental vem abaixo teratologicamente. Bombas estouram nos céus da cidade. Marlos se ajoelha no chão e agradece a Deus de maneira contida – já pensando como faria para reverter a indignação do sogro com a possível derrota no clássico. O chimarrão já não descia mais.

Terminada aquela peleia braba, Marlos cumprimentou o sogro colorado (um verdadeiro “pimentão” de tanta raiva), beijou a companheira (sorridente pela vitória azul), despediu-se e foi para o carro. Era o momento de desabafar sozinho denro da sua propriedade particular, e não em território inimigo: “VAMOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO, CARALHOOOOOOOOOOOOO!!! PORRAAAAAAAAAA, GRÊMIOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!” – urrou Marlos no interior de seu automóvel. Ao olhar para o lado, uma senhora de uns 84 anos mirou-o com ares de irritação e asseverou: “Muleque sem educação, vem pra cidade dos outros pra fazer arruaça”.

Foi um dos clássicos mais fantásticos da vida de Marlos aquele Gre-Nal do Centenário. Tudo que esse gremista deseja é que Fábio Rochemback, Douglas, Júlio César, Fernando e os demais jogadores do grupo atual façam valer a tradição do manto sagrado tricolor no clássico deste domingo, suando sangue em campo, brigando por cada bola como se fosse “um prato de comida”, honrando esse grandioso clube com mais de 100 anos de história, tal como o time de 2009 o fez dia 19 de julho daquele ano…

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