Marlos e Fome encaram ‘território inimigo’

Marlos despertara extremamente disposto. Havia dormido mais que as 8h exigidas pelo médico. Ostentava um sorriso fácil no rosto, pois na noite daquele 07 de março de 2012 o Grêmio iniciaria mais uma árdua caminhada em busca de um título nacional: o penta da Copa do Brasil, justamente o torneio de “mata-mata” no qual o Imortal Tricolor é o maior especialista. Dane-se que o adversário era o pequeno River Plate de Sergipe.

Torcedor fanático do Grêmio, ele havia recebido proposta de uns amigos da faculdade para assistir ao jogo válido pela primeira fase da Copa do Brasil 2012. Lá pelo fim da manhã, um dos amigos gripou-se e os demais se desestimularam. Marlos sondara com seu amigo de trabalho, “Fome” Krebber, a possibilidade de se encontrarem para tal evento.  “Fome” tinha esse apelido porque não tocava a pelota para ninguém nas peladas da gurizada, o típico “fominha”. Após muita conversa, alguns momentos de nostalgia com os títulos de 1989, 1994, 1997 e 2001, resolveram torcer em parceria pelo Imortal.

Exatamente às 21h, frente ao Bauru do Trianon (sede da Av. Protásio Alves), Marlos encontrou Fome para seguir caminho rumo ao Berverly Hills Bar, situado na famosa “Rua dos Botecos Porto-alegrenses”, a Gen. Lima e Silva. Pedalando pela sustentabilidade do planeta, cada um munido de seu respectivo veículo ciclístico, cruzaram as fronteiras do Bom Fim até chegarem à Lima e Silva. Iniciando a subida da Lima e Silva, lá pelas 21h20, deram de frente com “uma plantação gigantesca de moranguinhos” no Bar Pinguim.

Era óbvio. Santos e 2006 FC jogavam pela Copa Libertadores da América algumas horas antes e, como a partida não era em POA, os amargos haviam saído de casa para assistir nos bares. Marlos, petrificado pela cena, vestia a primeira camiseta do Grêmio, datada de 1903, com listras horizontais azuis e pretas foscas. Fome fora mais esperto: vestia camiseta preta e levava o manto sagrado na mochila. Resolveram encarar. Adentrando a ‘morangada’, um covarde colocou o pé para trancar a bicicleta de Marlos, que o encarou questionando: “Pra quê? Qual é a moral?” Seguiu-se um murmurinho, dois cuspes passaram raspando pelo alto, um outro acertou o canto da mochila de Marlos, algumas palavras de baixo calão e a barreira havia sido heroicamente ultrapassada.

Marlos estava aliviado, guiava sua caloi 10 quase na parte final da Lima e Silva, quando se deparou com um número incontável de morangos: “Bah, Fome, que ratiada que eu dei em vir só com essa camiseta; agora não vai dar, vamos por fora, porque se eu passar por ali é MORTE”. Fome olhou assustado e concordou com o planejamento estratégico.

Chegando ao Bervely Hills Bar, Cacique e Aristeu (amigos e donos do estabelecimento) saudaram “a coragem” dos dois gremistas. Deu tempo de assistir à repetição dos três gols de Neymar sobre o 2006 FC. Esperava-se que os amargos fossem embora após “o chocolate enfiado guela abaixo pelo Menino da Vila”, mas não foi o que aconteceu. Para piorar, o Grêmio estava irreconhecível em campo. Foi então que Almir Sergipano abriu o placar para o River Plate de Sergipe, causando delírio entre os bêbados vermelhos que insistiam em ficar no local. Um cocolorado então gritou ao fundo: “É DIFÍCIL JOGAR NO MONUMENTAL DE NUÑEZ…HAHAHAHA”. Marlos e Fome tiveram de engolir no seco. E o pior ainda estava por vir.

Imaginava-se que o segundo tempo seria diferente, face à entrada do argentino Facundo Bertoglio. Porém, Naldo falhou à guisa bizarra diante do desconhecido Jonathan, chute no ângulo de Victor e o caos havia sido decretado. Alguns amargos se abraçavam às gargalhadas. Fome vociferou: “Pqp, só o Kléber que joga alguma coisa nessa m…” Nada parecia dar certo para o Grêmio. Atuação bizarra, para ser esquecida. Os amargos seguiam felizes, até que o melhor jogador gremista de 2012 começou a fazer a diferença. Após cruzamento da esquerda, Kléber importunou tanto o zagueiro sergipan0 que este acabou fazendo contra. Já na reta final da peleia, faltando 5min para acabar o jogo, Bertoglio fez grande jogada e rolou para Kléber empatar. A ferida estava quase estancada. Fome e Marlos não tinham vibrado nos gols anteriores, até que André Lima cruzou da esquerda, Leandro cabeceou na trave e Bertoglio decretou a virada gremista. Era chegada a hora de dar o troco aos morangos. A festa e a arriação eram dos únicos gremistas no bar. Os amargos não sabiam mais o que fazer para justificar a humilhante derrota para o Santos cumulada com a virada tricolor. Antes que os ânimos se exaltassem, Fome e Marlos pegaram suas bikes e foram embora, satisfeitos pelo resultado, entretanto assustados com o desempenho tricolor. Valeu a pena ter encarado o “território inimigo” para ver o Tricolor.

Esse jogo só prova que para o Imortal Tricolor NADA é impossível. Mesmo tendo uma jornada infeliz, com produção pífia e atuação bisonha da defesa, nunca se pode duvidar do Grêmio. Luxa terá trabalho. A necessidade de se contratar zagueiros e um meia armador persistem. Se quisermos levantar o penta, teremos de jogar muito mais…

Tchüss, fusballteigers!!

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