A estranha paixão por jogadores que passaram pelo rival

O termo “virar a casaca” não está nos dicionários mais pesquisados por qualquer um que busque entender a definição de uma palavra ou expressão que não entende. No amansa burro da vida, clinic a frase se destina a caracterizar pessoas que trocam de time de futebol, em geral passando a torcer para o arqui-inimigo da antiga paixão. Virar a casaca também pode ser usado para denominar um jogador que troca de clube, passando a ir jogar no rival. No Rio Grande do Sul, trocar Grêmio por Inter, ou vice versa, pode ser considerado crime inafiançável.

Desde as últimas semanas, o Grêmio vem sendo alvo de especulações sobre a contratação de ex-jogadores do Inter. Mais precisamente o atacante Rafael Sóbis e o volante Sandro Silva. Na verdade, a imprensa esportiva gaúcha mais projetou do que reamente infornou á torcia. A questão, porém, me faz refletir sobre uma certa obsessão dos dirigentes tricolores em contratar atletas que já vestiram a camisa do rival. Sóbis e Silva não são nenhuma oitava maravilha do mundo e pouco acrescentariam ao atual plantel gremista carente de zagueiros, laterais e meias armadores.

Puxando pelo lado da curiosidade histórica, o volante Vitor Hugo talvez tenha sido o primeiro a sair do Inter para vir jogar no Grêmio, nos anos 1970. Casos emblemáticos como a contratação de Batista (aquele que hoje é mais conhecido por desmaiar ao vivo em uma transmissão de Gauchão) e a chegada de Mauro Galvão ao Olímpico fazem parte da história do futebol gaúcho e da rivalidade centenária da dupla grenal. Mário Sérgio saiu do Beira-Rio campeão brasileiro, rodou mundo e voltou para ganhar o Mundial de Clubes ao lado de Renato, Mazaropi e cia.

Outro ídolo do time colorado dos anos 70 desembarcou no Olímpico, no fim da década, e não fez feio. O goleiro Manga jogou até o início dos anos 1980 no Grêmio e provocou uma polêmica. Havia um acordo de cavalheiros entre a dupla de que um clube não contrataria jogador que tivesse jogado no rival. Este acordo foi quebrado, acusavam os colorados, quando o Grêmio contratou Manga. A direção tricolor da época se defendeu, alegando que a proibição era adquirir o passe de um atleta diretamente do Internacional. O goleiro jogava pelo Coritiba quando veio para a Azenha.

A direção gremista (não a atual, só pra deixar claro) ainda nos fez o favor de contratar ex-colorados que vieram e não deixaram nenhuma saudade. O centroavante Nilson, aquele do grenal do século, o atacante Maurício e o perna de pau peruano Hidalgo também judiaram a bola no sagrado gramado do Olímpico. Sem esquecer Silas, que foi jogador do rival e treinou o Grêmio, sem muito sucesso. Há um quê de revanchismo em contratar jogadores nesta situação, na expectativa de que talvez eles possam se doar mais em campo com a camisa tricolor. Tal filosofia só reforça a minha ideia contraria a esta estranha paixão de contratar caras que já jogaram no Inter.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.